33 – O que mudou com o Maio de 68 | FERNANDO ROSAS

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Provavelmente o autor deste soneto, Luís de Camões, nunca pensou que ele ganhasse a qualidade de paradigma para justificar e simbolizar muitos momentos históricos, especialmente aqueles em que a mudança é mais radical.

O Maio de 68 foi um deles e, em Portugal, fez desenterrar aquele soneto na forma de canção! E, logo no ano seguinte, fez eclodir todo um movimento que, de facto, era sobretudo o Maio de 68…português.

Que ficou passados estes anos? Tal foi o tema que propusemos ao nosso convidado de hoje, Fernando Rosas que, acabou por ser um dos seus protagonistas.

Fernando José Mendes Rosas, nasce em Lisboa a 18 de Abril de 1946, historiador e político português.

A família de Fernando Rosas era de tradição republicana e, talvez por isso, o jovem Fernando envolveu-se cedo na actividade política.

Aluno do Liceu Pedro Nunes participou, em 1960, na fundação da Comissão Pró-Associação dos Liceus (CPA-L) e, um ano depois, aderiu ao Partido Comunista Português.

Em 1962, já estudante de Direito envolveu-se nas lutas académicas que despoletaram nesse ano. Por causa destas actividades acabaria por ser detido, em Janeiro de 1965, e condenado a um ano e três meses de prisão correccional.

Em 1968 afasta-se do PCP, continuando, no entanto, empenhado na contestação à ditadura e no activismo de esquerda; participa na primeira manifestação em Portugal contra a guerra do Vietname.

Em 1969 apoia a Comissão Democrática Eleitoral (CDE) que, com a CEUD de Mário Soares formava a Oposição Democrática às eleições legislativas desse ano e, em 1970, fundava … o MRPP.

Entretanto, licenciou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, após o que se tornou jurista no Gabinete de Estudos e Planeamento dos Transportes Terrestres.

Mas, em 1972, e depois de cumprir uma pena de prisão em virtude da sua actividade política, foi impedido de regressar à função pública.

É assim que, em Agosto de 1971, é detido pela segunda vez e submetido à tortura do sono, seguindo-se uma condenação de 14 meses de prisão correccional, finda a qual e na sequência de ter conseguido escapar-se a nova tentativa de detenção, viveria na clandestinidade até ao 25 de Abril!

Após a revolução e até 1979 passa a dirigir o jornal oficial do MRPP, o Luta Popular, apoiando igualmente as candidaturas presidenciais de Ramalho Eanes, em 1976 e 1980.

Afastado do MRPP, passou a dedicar-se ao jornalismo, coordenando a página de História do Diário de Notícias e participando na redacção do seu suplemento cultural, até 1992, ano em que se iniciou como colunista do jornal Público.

A partir de 1985, será várias vezes candidato independente a deputado, nas listas do Partido Socialista Revolucionário (PSR), concluindo no ano seguinte o mestrado em História dos Séculos XIX e XX, pela Universidade Nova de Lisboa.

É convidado para assistente do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Doutorado em História Contemporânea, em 1990, ascendeu a professor catedrático da FCSH-UNL em 2003.

“Respirar é fazer política”, afirmou um dia aos microfones da TSF.

Tal mostra que Fernando Rosas nunca põe de lado a actividade política, razão pela qual viria a participar na fundação do Bloco de Esquerda em 1999, cuja Comissão Permanente integrou.

Foi eleito deputado à Assembleia da República, em 1999 e 2005, pelo Círculo de Setúbal, e em 2009, pelo de Lisboa, para além de ter sido candidato à Presidência da República em 2001, com o apoio do Bloco de Esquerda. Em 2006 foi feito Comendador da Ordem da Liberdade mas, apesar de já não ser deputado, mantém a intervenção política mesmo que a mostre sobretudo na comunicação social como é o caso da sua presença em programas como a Prova dos Nove da TVI24.

História Contemporânea, Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974) e Iª República (1910-1926) – tais são as áreas de interesse intelectual e de trabalho do nosso convidado e que nos explica não só o ter presidido ao Instituto de História Contemporânea (1990-2013), a ser consultor da Fundação Mário Soares e ter sido director da revista História mas também, a sua vasta obra em que se destacam publicações como: O Estado Novo nos Anos 30, Portugal Entre a Paz e a Guerra (1939/45), Salazarismo e Fomento Económico, Portugal Século XX : Pensamento e Acção Política, Lisboa Revolucionária e Salazar e o Poder – A Arte de Saber Durar (2012).

Seria difícil encontrar alguém melhor que nos viesse falar, até por experiência intelectual própria, de um tema como “O que mudou com o Maio de 68?”. Mas, até porque sabemos que os tempos e as vontades se mudam, além de ouvirmos a intervenção de Fernando Rosas, devemos agradecer-lhe a disponibilidade para connosco partilhar aquele que será a nossa última Charla no espaço do hotel Cidadela.

Da próxima vez estaremos na Sociedade de Geografia, com um novo figurino e onde acaba hoje as Charlas no Cidadela e começam as Charlas dos Amigos de Platão!

Mas antes de dar a palavra ao nosso palestrante de hoje, quero-vos anunciar que a próxima Charla, vai continuar como habitualmente às sextas-feiras, de dois em dois meses, e será a 34ª, no dia 9 de Novembro de 2018, e para tal teremos, como nosso convidado João Cravinho, Engenheiro e Economista, que nos vêm provocar com o tema: “A transformação demográfica em Portugal: uma visão anti catastrófica”.

Fernando Rosas, o que mudou com o Maio de 68? – um mito sem razão de ser, ou uma história por contar? Muitos aguardam a sua resposta.